quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Falácias para estudo

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1. Ad misericordiam (apelo à misericórdia): é uma forma de argumento baseada em sentimentos e emoções, nomeadamente uma que procura produzir um sentimento de compaixão para, a partir dele, levar o público a assumir uma determinada posição. Exemplos: 1) "Mãe, fiquei traumatizado porque chumbei o ano. Para me consolares devias oferecer-me uma mota"; 2) "Bhima era um menino indiano que morreu de fome porque a globalização pôs o seu pai no desemprego"

2. Ad hominem, ou ataque à pessoa: consiste em atacar o interlocutor, podendo este ataque ser feito de várias maneiras: ridicularizando a pessoa, denegrindo-a, supondo a sua incompetência ou supondo a falta de idoneidade moral. Note-se que o ataque é feito contra o argumentador, não contra o argumento. Exemplos: 1) "O Dr. Smith é um conhecido fundamentalista bíblico, pelo que as suas objecções relativas à teoria da evolução não precisam de ser tomadas a sério" (Carl Sagan); 2) "Heidegger pertenceu ao partido nazi, Aristóteles era alcoólico e Sócrates tinha práticas homossexuais, pelo que as suas teorias morais não têm valor".

3. Falso dilema: É um raciocínio dedutivo que tem como principal premissa uma falsa dicotomia ou meio excluído (uma proposição que "considera apenas os dois extremos de uma série de possibilidades intermédias”, como escreveu C. Sagan: "Quem não está comigo está contra mim" ou "Ou te casas com ela, ou morrerás"). Esta apresentada a necessidade de escolher entre dois casos que são falsamente apresentados como as únicas opções possíveis. Exemplo: "Ou poupas papel, ou és contra a natureza. Se poupas, então aceitas consumir eletricidade produzida a partir de carvão. Se és contra a natureza, aceitas a monocultura de eucalipto. Logo, ou aceitas queimar carvão ou aceitas a monocultura do eucalipto.
4. Post hoc, propter hoc: (=Se vem na sequência disso, é provocado por isso) Por um facto acontecer a seguir a outro, infere-se que foi causado por este. Exemplos: 1) "Depois de terem ido á Lua o tempo nunca mais foi o mesmo"; 2) "Antes de as mulheres poderem votar não havia armas nucleares" (Pode confundir-se com a de non sequitur — “não decorre de…”: Ex. “Vencemos pq deus é grande!”)

5. Petição de princípio, ou argumento circular: "consiste em pretender provar uma conclusão, tendo, como premissa, a própria conclusão". Chama-se petição de princípio porque as suas premissas não se apoiam numa prova ou numa outra premissa independente. 1) “José queria comprar um carro novo. Alegava que desde que deixara de fazer caminhadas se sentia demasiado fatigado e obrigava-o a deslocar-se de carro, mesmo quando ia ao supermercado do bairro”; 2) “Se um objeto é valioso, então é procurado no mercado. Ora, os compradores são exigentes: só procuram objetos interessantes. Interessam-se, especialmente, pelos objetos mais valiosos.”

6. Apelo à força: assenta na apresentação de ameaças explícitas ou veladas. Podemos vê-lo também coo uma antecipação da derrota do adversário, levando-o a desistir a meio do processo argumentativo: Ex.: 1) "Não merece a pena referendar o aborto porque os cristãos vão unir-se e votar em força contra a proposta"; 2) "Se não me dás a minha borracha vou chamar a professora!"

7. Apelo à ignorância: Da ausência de provas em contrário infere-se um determinada conclusão: “Não se provou conclusivamente a hipótese de Darwin. Logo, os criacionistas têm razão”. 

8. Derrapagem ou bola de neve ou plano inclinado: Produz-se uma sucessão de inferências encadeadas umas nas outras. Cada nova inferência é cada vez menos provável. Ex: “Se ficares em casa por estares doente, os contribuintes terão de pagar a tua ida ao médico e o subsídio de doença. Dessa forma, os cofres do estado ficarão mais pobres e, consequentemente, terão de subir os impostos. Isso provocará tumultos que acabarão por levar a uma guerra civil… Arriscas-te a começar a 3ª guerra mundial!”

9. Homem de palha: “caricatura uma posição para tornar mais fácil o ataque (por exemplo, Os cientistas imaginam que as coisas vivas se limitaram a aparecer por acaso — uma formulação que propositadamente ignora a ideia central darwiniana, ou seja, que a natureza evolui progressivamente poupando o que funciona e eliminando o que não funciona. Ou - isto é também uma falácia curto prazo/longo prazo — os ambientalistas preocupam-se mais com caracóis e mochos do que com as pessoas)” (Carl Sagan)

10. Apelo a uma autoridade: Uma autoridade é alguém especialista num assunto. Invocar uma autoridade sem apresentar as ideias ou factos que a tornam pertinente não serve como prova. Por outro lado, se apresentarmos essas ideias ou factos não precisamos da autoridade, a não ser para aproveitarmos o seu prestígio a nosso favor. Nenhuma autoridade nos isenta do dever de analisar criticamente uma teoria, uma hipótese ou mesmo um facto.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Falácia - Definição

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O trabalho Falácia - definição de Paulo Sousa está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
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 Este post será revisto e aumentado em breve.

Um argumento é falacioso quando parece que as razões apresentadas sustentam a conclusão, mas na realidade, mas na realidade não sustentam”.


Na lógica e na retórica, uma falácia é um argumento logicamente inconsistente, sem fundamento, inválido ou falho na capacidade de provar eficazmente o que alega. Argumentos que se destinam à persuasão podem parecer convincentes para grande parte do público apesar de conterem falácias, mas não deixam de ser falsos por causa disso.
Os argumentos falaciosos podem ter valor emocional, íntimo, psicológico, mas não validade lógica. É importante conhecer os tipos de falácia para evitar armadilhas lógicas na própria argumentação e para analisar a argumentação alheia.”

A noção de falácia é difícil, por ser ambígua: existem diferentes tipos de falácias (formais e informais), cada um dos quais com um ou mais critérios diferentes. Assim, não há maneira de dar uma definição que seja ao mesmo tempo simples e suficientemente abrangente.

As falácias são argumentos ou raciocínios que aparentam sustentar a conclusão, mas que não o fazem. Estes argumentos/raciocínios são falaciosos porque...
  • aparentam ser válidos/dedutivos sem o ser (ex., f. da afirmação do consequente);
  • inferem uma conclusão incorrecta (ex: falácias da negação da condicional)
  • são argumentos indutivos sem nexo considerado suficiente para justificar a premissa (ex.:, generalização apressada).
  • não têm premissas verdadeiras (ex., falso dilema)
  • omite informações relevantes (ex., falso dilema, ...)
  • distorce informações (ex., homem de palha)
  • manipula o público (argumentos baseados em emoções, falácia ad hominem)

A partir desta lista podemos verificar que os critérios de classificação das falácias não são simples, o que faz com que um argumento possa ser considerado uma falácia segundo um critério e uma não falácia segundo um outro critério.
Por exemplo, se a validade for um critério, os argumentos indutivos serão considerados falácias, o que parece ser um conclusão precipitada, uma vez que deixaria de fora todas as teorias científicas. Por outro lado, se tivermos em conta a verdade das premissas, um falso dilema será uma falácia, apesar de ser um argumento dedutivo (válido). Desta forma, a classificação de um argumento como falácia daquilo que dela esperamos: se quisermos utilizar um dilema como exemplo de uma forma dedutiva/válida, vê-lo-emos como tal; mas se partirmos de uma premissa falsa do tipo “ou és do Benfica, ou és mau chefe de família”, então teremos uma falácia.

Outra dificuldade da definição de falácia, comum aos diferentes textos que lemos, é introduzida pela utilização do verbo aparentar: este acrescenta um elemento subjectivo que não pode ser medido com precisão e que introduz uma nova ambiguidade: se uma determinada forma é para mim um erro óbvio, não a verei como falácia; mas se for para mim uma forma enganadora, já passará por falácia...

O manual define falácia como argumento não cogente, mas esta definição cobre apenas uma parte das falácias, uma vez que um raciocínio cogente é um raciocínio válido, e uma vez que um raciocínio é válido (na acepção dada por Tarski, que seguimos) se a sua conclusão for verdadeira em todas as circunstâncias possíveis que tornam verdadeiro o conjunto das suas premissas.
(A pretensão do manual faria sentido se aceitássemos a sua noção ambígua de validade, a qual ora se define por um critério formal, ora se define por um critério material. Até agora não vimos esta acepção senão no manual que estamos a utilizar. As obras de referência que temos utilizado seguem a definição de Tarski, fomulada em termos mais ou menos técnicos.)

AAVV - Enciclopédia de termos logico-filosóficos, Lx, Gradiva 2002
http://pt.wikipedia.org/wiki/Fal%C3%A1cia (veja neste site uma lista de falácias)

terça-feira, 22 de maio de 2012

Estrutura de ensaio argumentativo

De: http://www.lc.unsw.edu.au/onlib/essay3.html

Structure


Structure your essay in the most effective way to communicate your ideas and answer the question.



All essays should include the following structure





sexta-feira, 11 de maio de 2012

Esclarecimento - Utilitarismo

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O trabalho Esclarecimento - Utilitarismo de Paulo Sousa está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
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Esclarecimento

Utlitarismo dos atos, das regras, das preferências e hedonismo

Classificação segundo o âmbito da escolha:
ações particulares (espécime) Vs tipos de ações (género)
Classificação segundo o objeto da escolha
U dos atos
U das regras
Hedonismo
U das preferências
Avalia cada ação em particular/separadamente, em função das consequências que produz. Rachels (p. 165) associa-o ao utilitarismo clássico. Não aceita que se deva considerar, à partida, que todas as regras são boas e inquestionáveis (169). Permite contornar o incómodo de ter de incluir exceções às regras, mas pode levar à inconsistência entre diferentes acções do mesmo indivíduo..
Considera que a avaliação/escolha não deve ser feita sobre atos individuais, mas sobre regras: “perguntamos primeiro que conjunto de regras é melhor da perspetiva utilitarista” (166). “O utilitarista das regras (…) perguntaria primeiro 'que regras gerais de conduta tendem a promover a maior felicidade?'” (166).
Tenta evitar ações inconsistentes, mas pode fazer emergir inconsistências entre diferentes princípios.
Deve-se procurar maximizar as experiências mentais de prazer e evitar as de sofrimento. Trata-se da perspetiva que nos aparece em J. Bentham.


Deve-se procurar maximizar a satisfação das preferências ou interesses (Pedro Madeira, Introdução a Utilitarismo, Gradiva, p. 23). Valoriza uma vida boa (eudemonismo), substituindo o conceito de prazer pelo de preferência, visto que algumas coisas que nos dão prazer são contra os nossos interesses, e vice-versa. Não se deve interferir com as escolhas dos indivíduos, exceto se soubermos que esta lhe é prejudicial e ue a pessoa não está a ser racional ou não possui todas as informações relevantes para essa escolha.





Nota 1: Uma vez que estamos a utilizar dois critérios de classificação diferentes, podemos ter uma teoria que seja simultaneamente, por ex., um utilitarismo das regras e das preferências.

Nota 2: Que tipo de utilitarismo corresponde à teoria de Mill? — considero que a posição de Mill é ambígua em relação a ambos os critérios de classificação.
Quanto ao âmbito: defende um utilitarismo dos atos, mas admite que i) há princípios inegociáveis que devem ser seguidos e que nos obrigam a colocar restrições que nos impedem de escolher determinadas ações porque elas são imorais; ii) há coisas que são sempre preferíveis a outras; iii) algumas escolhas devem ser feitas para a sociedade ou para a humanidade no seu todo, e têm de ser escolhidas a priori, isto é, sem poder observar, caso a caso, quais são os seus resultados concretos (mas fazemdo uma previsão dos resultados possíveis). Apesar de Mill não se explicar bem, parece reconhecer algumas falhas do utilitarismo clássico e avançar na direção de um utilitarismo das regras. Acrescente-se que pedro Madeira e James Rachels discordam na interpretação que fazem de Mill, no que respeita a ser um utilitarismo dos atos ou das regras.
Qaunto ao objeto: a procura de prazer é natural e deve ser reconhecida como um objetivo legítimo (hedonismo); no entanto, nem tudo o que dá prazer é bom. Mill resolve este problema introduzindo diferentes tipos de prazer e de satisfação que justificam que um prazer material pode não justificar uma ação, face às suas consequências espirituais, sendo preferível uma vida boa, do ponto de vista da satisfação das diferentes necessidades humanas, incluindo as espirituais (eudemonismo).

sábado, 9 de outubro de 2010

O que é um ensaio?

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Revisto e aumentado em 15/10/2012

Definição
É difícil definir ensaio, porque este termo designa um texto que pode ter diferentes formas e objectivos. Uma definição simples deixaria de fora a maior parte dos diferentes tipos de ensaios. Por isso, a primeira coisa que um estudante tem a fazer quando o seu professor lhe pede um ensaio é pedir indicações precisas sobre o tipo de trabalho que se pretende.

Um ensaio é um trabalho de síntese. Tal significa que antes da sua redacção teve de haver um trabalho preparatório de recolha, compreensão, reorganização e análise da informação acerca de um determinado problema ou tema.  Para um professor, pode servir para avaliar toda aquela gama de competências (skills), mas também a iniciativa, o raciocínio crítico ou a criatividade.
  
Um ensaio pode ser um texto argumentativo, ou seja a defesa de uma tese (opinião, solução...) acerca de um problema que não tem uma resposta óbvia ou dedutiva, mas que depende, em alguma medida, de uma decisão por parte de alguém (é, em maior ou menor grau, arbitrária). Mas também pode ser a apresentação de resultados de um estudo, o desenvolvimento de um tema, a análise aprofundada de um conceito, uma biografia, o desdobramento de um problema em subproblemas, uma dissertação,... (Aquilo que os professores de português designam por dissertação costuma corresponder à nossa definição de ensaio argumentativo.)
 
Aspetos comuns
O que há de comum a estas diversas formas é o desenvolvimento ou aprofundamento de um tema ou de um problema.
Um outro aspecto comum é que se trata de um texto original - não se esperando que se descubra a pólvora, mas apenas que seja um texto pessoal, nascido de uma reflexão e/ou do estudo realizado pela pessoa que o apresenta.
O autor do ensaio tem alguma (por vezes muita) liberdade para preparar e redigir o seu texto, sendo de esperar que não haja dois ensaios iguais sobre  mesmo tema.

Plágio
Quando analisa uma obra ou pesquisa informação, cada pessoa repara em pormenores diferentes, tem interesses próprios, reflexões pessoais e uma história de vida que se vão reflectir nas observações que faz e na forma como desenrola o fio do raciocínio e monta uma dada relação entre as diferentes partes do texto. Por isso, a probabilidade de se ler dois ensaios originais iguais ou muito parecidos é quase nula (geralmente, tal significa que dois alunos copiaram a partir da mesa fonte!...). Os professores tem isso em conta e tendem a devolver ou anular os ensaios copiados.
Neste blogue podem ser encontradas recomendações para a produção de ensaios argumentativos, por ser esta a forma mais normalizada. Num ensaio argumentativo, o ponto de partida (o eixo) do texto é um problema cuja resolução assenta numa decisão ou numa aceitação: serve para persuadir um público ou para analisar, numa discussão, as justificações de diferentes respostas. Podemos utilizar a mesma estratégia de partir de um problema para realizar outro tipo de ensaio: a colocação da pergunta dá lugar à apresentação de uma resposta e à sua justificação; ...ou ao desdobramento da pergunta, ao isolamento de factores ou conceitos, à análise das relações entre os diferentes factores ou conceitos, e à apresentação de uma resposta... São dois exemplos do que se pode fazer.

A maior parte das pessoas que procuram este blogue são alunos/estudantes a quem foi pedido um trabalho. A eles dirijo uma primeira recomendação: se a sua professora lhe pediu para escrever um ensaio, procure saber ao certo o que ela (ou ele) entende que é um ensaio. Procure saber quais são os elementos que se espera que o seu ensaio tenha e a forma como eles serão avaliados. É aconselhável que aos alunos que se iniciam na escrita de ensaios sejam dadas algumas indicações, normas ou sugestões sobre como fazer um ensaio; sobretudo se se pretende obter um produto tipificado/normalizado. 
Esta tipificação é de grande importância para os alunos que se espera que venham a fazer estudos universitários. 
No entanto, alguns professores gostam que os seus alunos suem, para que o trabalho realizado deixe marcas profundas (é uma abordagem legítima, mas de dificuldade acrescida). Nestes casos, se o professor não fornece um esquema prévio do que deve ser um ensaio, é aconselhável que, a bem do fair play, aceite qualquer trabalho e saiba apreciar a qualidade que inevitavelmente lhe chegará em diferentes formas. (Os alunos devem também estar atentos, porque quando não há um padrão definido, o normal é que haja uma grande variedade. Como dissemos acima, a ausência de variedade indica que foram copiar à mesma fonte...)

Recomendações básicas:

1. Se não tiver uma ideia melhor, opte por um texto argumentativo (noutras entradas deste blogue é explicada a sua estutura - por exemplo, em http://palmo-a-palmo.blogspot.pt/2012/10/espaa20112012-filosofia-10.html,
http://palmo-a-palmo.blogspot.pt/2010/03/sugestoes-para-escrever-um-ensaio.html ou
http://palmo-a-palmo.blogspot.pt/2012/05/de-httpwww.html). 
Coloque questões, partindo de uma questão central, e responda-as. Apresente justificações e ligue as várias afirmações/respostas a que vai chegando.

2. Seja claro(a): escreva como se tivesse de se explicar a um jovem de doze anos inteligente, mas que não conhece o assunto e tem um vocabulário limitado (se tiver de utilizar termos técnicos, explique-os).

3. Siga o velho guião "Introdução - problema - tese - factos relevantes e argumentos - objeções - conclusão"
4. Não há omeletes sem ovos: a capacidade de desenvolver um tema exige conhecimento do assunto e treino. É necessário estudar e pesquisar, analisar o tema de maneira a identificar os conceitos ou tópicos-chave, fazer resumos, sínteses e diagramas. A cultura geral também é muito útil, assim como saber colocar/analisar perguntas e fazer muita reflexão pessoal ou partilhada com outros.
Se houve tempo para estudar o tema, o mais aconselhável para se fazer em seguida é identificar os tópicos ou problemas mais importantes e começar a desenvolver vários textos a partir deles (provavelmente acabando por dizer a mesma coisa a partir de pontos diferentes: pode se um trabalho monótono, mas permite que aquando da escrita do ensaio - se esta for feita na aula ou num exame - não seja preciso pensar muito sobre como o texto irá ser montado). 
Ainda que não saiba de antemão qual será o tema a desenvolver, deverá escolher e desenvolver alguns temas do tipo que espera que venha a ser debatido. Deste modo, estará a praticar a rotina de produção de um ensaio, ou seja, a mecanizar o processo de escrita, permitindo que daí em diante os seus textos quase se escrevam sozinhos.

5. Uma última recomendação: quando tiver de fazer este tipo de exercício de escrita, procura fazê-lo com alguns colegas, porque se estimularão uns aos outros.

Dois exemplos de ensaios argumentativos:
http://peripoetica.blogspot.pt/2012/06/ensaio-o-estado-deve-comemorar-feriados.html
http://peripoetica.blogspot.pt/2012/06/ensaio-religiao-e-sociedade.html

 

sábado, 13 de março de 2010

Sugestões para escrever um ensaio


 switchpointvisionaries.blogspot.com
Sugestões para escrever um ensaio

Um ensaio é um tipo de texto em que se desenvolve um tema de uma forma mais ou menos pessoal. Pretende-se que seja a síntese de um trabalho de estudo ou de meditação e deverá reflectir que se conhece um determinado assunto em profundidade. Por isso, os ensaios costumam ser trabalhos que têm alguma complexidade.
Eis alguns segredos para produzir um bom ensaio:

1. Preparação e estudo. Só assim se podem fazer trabalhos personalizados e incluir os pormenores que mostram que se conhece o assunto e que fazem brilhar os olhos dos professores.

2. Hábitos de escrita: não é preciso ser-se um génio literário, mas é preciso saber escrever frases com sentido, encadeá-las numa sequência lógica e organizar o texto segundo um objectivo.
Na escrita há que ter alguns cuidados básicos: Escrever frases curtas e encadeá-las bem. Justificar as afrimações. Abrir um parágrafo para cada novo passo dado na sequência das ideias. Utilizar vocabulário simples (as palavras caras e as frases complicadas são tentativas de disfarçar a ignorância que, geralmente, só funcionam com quem as utiliza). Evitar a utilização de adjectivos.

3. Definir um tema ou escolher um problema: formular questões (por exemplo, um grande problam do qual saem outros mais específicos) é uma das formas mais eficientes de abordar um tema e de estruturar um raciocínio. Uma pergunta dá-nos de imediato um ponto de partida e um objectivo (a resposta) ao qual queremos chegar. Deve-se ter o cuidado de formular uma pergunta que tenha directamente a ver com o tema ou a obra que está a ser tratada.

4 Rascunho/plano de trabalho: o rascunho é uma ferramenta importantíssima. Não serve para escrever o texto para depois passar a limpo, mas sim para nele despejar e anotar as ideias, anotar os tópicos mais importantes e organizar a sequência de ideias. Para organizar um plano de trabalho, pode-se começar por formular uma questão (se fez a preparação, o aluno conhecerá de antemão várias questões) e identifique um objectivo (onde quer chegar).
Nem sempre um plano de trabalho resulta bem. Se assim acontecer, é preciso fazer outro. Se não houver tempo para isso, terá de se seguir o plano que se tem. Se o aluno se preparou, não terá grandes problemas por isso: ainda que o resultado possa não ser tão bom como gostaria, tem ainda boas hipóteses de ter um resultado muito razoável.

5. Personalização: é quase inevitável que quem se preparou produza um trabalho personalizado. Não nos esqueçamos que num ensaio existe sempre alguma margem de liberdade e de criatividade. Para a estimular, os professores costumam produzir questões abertas ou vagas, sabendo qus os alunos mal preparados não sabem como lidar com este tipo de questões (na maior parte dos casos, ou nada dizem, ou dizem banalidades que não vêm para o caso). Ainda assim, convém ter um conjunto de perguntas e de opiniões na manga – para serem usadas com moderação. As opiniões próprias costumam ser bem aceites, mas devem ser bem fundamnetadas. Se o professor está à espera de uma resposta fixa/padrão à qual queira apresentar uma alternativa, tenha o cuidado de apresentar a sua opinião apenas depois de ter apresentado muito bem aquela que o professor espera.

Quando um professor pede a um aluno que escreva um ensaio, está à espera de receber um texto que mostre que determinado assunto foi estudado e pensado. Deve-se procurar que o ensaio reflicta ao máximo o estudo realizado, mas deve-se ter cuidado para não cair no exagero! – A partir do momento em que decidimos abordar um determinado assunto a partir de um determinado tema ou de uma determinada questão, alguns tópicos tornam-se mais importantes que outros. Estes, a serem mencionados devem sê-lo de passagem. Querer dizer tudo é entendido como um sinal de fraca capacidade de análise, de síntese e de estruturação das ideias. Por outras palavras, indica que o aluno memorizou um texto que não compreende... É verdade: por muito que possa custar, é preciso saber cortar.

Geralmente, nota-se que houve um trabalho de preparação pela forma mais ou menos original como o estudante encadeou as suas ideias, pelas relações que fez com outras matérias, textos ou problemas, pela inclusão de observações ou perguntas que o professor não colocou nas aulas (e que só podem ter sido colocadas por alguém que contactou directamente com o objecto que está a ser analisado). Por outro lado, os alunos que vão buscar a sua inpiração às sebentas e a outros materiais pré-cozinhados rrão reproduzir uma selecção e uma sequência de ideias que será igualzinha a de vários colegas seus... e que, provavelmente, o professor já leu em anos anteriores, porque os alunos alternam-se mais depressa do que as sebentas.
Numa segunda fase da preparação é preciso fazer um esquema da obra analisada, se for esse o caso, do período histórico, do problema, etc. Devem ser identificadas as personagens, os conceitos, as relações, etc. Depois, é preciso fazer perguntas e identificar grandes temas.
Se este trabalho for bem feito, o mais difícil já foi conseguido. A partir daí, bastará pegar numa ponta para conseguir seguir o fio de um raciocínio. Uma boa preparação permite que o mesmo tema seja abordado a partir de muitos pontos diferentes e que a partir de cada um deles se consiga passar para todos os outros.

As formas que os ensaios podem ter variam um pouco. Pode haver uma forma pré-definida para os ensaios científicos ou exigida por um determinado professor; mas a verdade é que os ensaios podem ser desenvolvidos de muitas maneiras. Podem ser textos argumentativos que seguem ou não o cânone clássico dos argumentos; podem ser divagações acerca de um tema; podem ser análises de questões... Todas essas opções aceitam a designação de ensaio.
Apesar de existir essa diversidade de formas, uma das primeiras coisas que um estudante deve procurar saber é o tipo de ensaio que o seu professor pretende e o grau de liberdade que lhe dá (albarda-se o burro à vontade do dono). Pode-se perguntar directamente ao professor ou aos alunos mais velhos o que aquele prefere (pode ser exactamente o contrário do que aqui se recomenda!).

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Deontologia da argumentação - apontamentos


Ficha de trabalho 2: Como trabalhar em Filosofia?

Os problemas de que a filosofia trata não são acerca de coisas materiais ou concretas, no sentido em que uma árvore ou um som são coisas materiais e concretas. É esta a causa da maior parte das dificuldades da filosofia, porque quanto mais nos afastamos das coisas concretas e observáveis, mais somos obrigados a adivinhar, imaginar e interpretar.
Esta dificuldade não é exclusiva da Filosofia; qualquer ciência se debate com ele. Alguns exemplos são o conceito de matéria, os problemas da origem e formação do Universo (Física) ou o problema da origem da vida (Biologia). É por isso que nessas ciências há discussões, investigações e teorias opostas acerca dos mesmos problemas. No entanto, na Filosofia esta dificuldade é muito mais grave, porque trata de conceitos e de problemas que experienciamos apenas nas nossas mentes:
Liberdade
Justiça
Bem [moral, político]
Realidade
Conhecimento
Certeza...
Não podemos falar destes problemas ou conceitos como factos, embora os utilizemos para dar significado ao mundo em que vivemos.Eles são fundamentais para compreendermos o mundo, para organizarmos a nossa vida em sociedade ou para orientarmos as nossas próprias pessoas, mas não são nada que possamos observar fora das nossas mentes. Posso observar claramente uma pessoa a ser impedida de entrar numa determinada loja (é um facto), mas não posso dizer com a mesma clareza se isso é justo ou injusto. Sei que todos estamos sujeitos a pagar impostos, mas é mais justo que todos paguem a mesma quantidade de dinheiro, que todos paguem a mesma taxa de imposto ou que uns paguem e outros não. Aliás, podemos questionar se é de todo justo pagar impostos?
...Se não são factos, como podemos ter certezas acerca do seu significado? Se existem apenas na nossa mente, como posso saber que o significado que eu dou, por exemplo, ao conceito de Justiça, é igual ou melhor do que o significado que qualquer outra pessoa lhe dá?
Como discutir estes problemas de forma produtiva?

a) Criação de normas deontológicas
• Ser o mais objectivo possível: recorrer a factos, sempre que possível; utilizar todos os dados relevantes para o problema que se está a analisar; usar dados que outras pessoas possam observar ou que possam ser repetidamente observados.
• Distinguir factos de interpretações e dar maior importância aos primeiros (esta norma não é 100% correcta).
• Definir claramente e enquadrar o problema que se está a analisar. Justificá-lo, se necessário.
• Usar uma linguagem clara: usar termos simples, tanto quanto seja possível; evitar usar mais do que dois termos para o mesmo significado, e nunca usar dois significados para o mesmo termo.
• Comunicar as suas ideias de uma forma clara, que permita uma fácil compreensão e uma análise crítica por parte do público. O orador tem o dever de se fazer compreender.
• Justificar todas as afirmações.
• Procurar e analisar soluções alternativas para o mesmo problema.
• Ser sempre críttico, começando por sê-lo em relação ao seu próprio trabalho.
• Numa discussão, ouvir os outros e procurar compreendê-los antes de aceitar ou recusar o que eles nos dizem.
• Estar pronto para mudar de opinião.
• Recusar a autoridade: todos os investigadores podem contribuir para o avanço do conhecimento; muitas das antigas autoridades estão ultrapassadas. Ter cuidado com as ideias feitas.

b) Utilização de métodos adequados a cada problema.
Na Filosofia: reflexão (detecção, análise e conceptualização dos factores que compõem ou influenciam o objecto da nossa análise... a partir das tomadas de consciência e/ou da observação da realidade) + argumentação

A formação e a evolução dos conceitos

c) Aperfeiçoamento do discurso argumentativo e criação de normas para a argumentação científica e filosófica
Estrutura, fins e aplicações do discurso argumentativo

Argumentação - Noções



Este documento necessita de revisão

FICHA DE TRABALHO: Argumentação - Noções:


Argumentar/argumentação:

Argumentar é apresentar razões ou factos (=argumentos) que apoiem uma determinada conclusão (=tese). Sempre que justificamos uma opinião ou o resultado de um raciocínio estaremos a construir uma argumentação (WESTON, 1996). De acordo com esta noção, tanto a tentativa de convencer a mãe a deixar-nos entrar em casa após as seis da manhã, como o debate de princípios morais, como a justificação de um cálculo matemático são formas de argumentação.
            Repare-se, no entanto, que estes exemplos são formas distintas de argumentação. Há uma diferença entre uma demonstração lógico-matemática, por um lado, e o debate de ideias morais. A grande diferença é a seguinte:
·         Numa demonstração lógico-matemática não há lugar para opiniões, tudo depende de regras precisas: aplicando as regras obtém-se necessariamente um determinado resultado, que tem de ser aquele e não pode ser outro; assim, o trabalho de quem argumenta consiste em explicar com detalhe a forma como se passa de um determinado conjunto de premissas para uma determinada conclusão;
A estes argumentos chamamos argumentos dedutivos e correspondem àquilo que designámos por discurso dedutivo/demonstrativo. Estes argumentos são avaliados segundo o critério da validade, e podem ser válidos, consistentes ou inconsistentes.

·         Um debate sobre questões morais (ou outras) é bastante subjectivo, no sentido em que as opiniões a defender e os argumentos que as defendem têm de ser aceites pela consciência dos interlocutores; este é um trabalho que não poderá ser realizado pela simples aplicação das regras da lógica ou da matemática.

Sé é um facto que se argumenta para defender teses que não se podem deduzir de forma perfeitamente clara, e que o discurso argumentativo está contaminado por alguma subjectividade, isso não quer dizer que se aceita qualquer coisa como tese: pelo contrário, existe um compromisso com a verdade e com a realidade. Por isso faz-se aqui uma distinção entre a argumentação e a retórica, uma vez que os seus objectivos não coincidem: o objectivo da retórica é a persuasão (e a vitória sobre o outro), enquanto que o da argumentação é a verdade.
Devido a esta importante diferença, e para nos focarmos num determinado tipo de argumentos, optamos por usar o termo 'argumentação' para designar apenas a defesa de teses não demonstráveis — aquelas que não são completamente apoiadas por factos ou por outras razões que conduzam automaticamente a uma dada conclusão.


Argumento em sentido lato (sequência PTA: 
Problema, Tese e Argumentos/justificações):

            Em sentido lato, um argumento é a unidade geral, o conjunto articulado e sequencial de todas as razões e raciocínios que sustentam a conclusão/tese.
Aquilo a que chamamos o discurso argumentativo é uma forma geral que, como vimos,  pode socorrer-se de diferentes tipos de argumentos – argumentos com base em exemplos; argumentos dedutivos, argumentos por analogia, argumentos de autoridade, argumentos sobre causas, argumentos baseados em sentimentos e emoções... Conforme predomine um ou outro tipo de argumentos, assim a argumentação poderá ser de diferentes tipos. Conheço um tipo classificado, que é o do discurso dedutivo/demonstrativo, que privilegia as deduções lógicas como tipo principal de argumento.


Argumento em sentido restrito (razão, justificação):

Em sentido restrito, um argumento é uma razão ou conjunto de razões apresentados para sustentar uma dada tese/conclusão. Consiste na apresentação de um conjunto de premissas a partir do qual se elabora um [geralmente] pequeno raciocínio. (Os termos “argumento” ou “razão” podem ser substituídos pelos termos “premissa” ou “justificação”, devendo ser tomado em conta o contexto.)
Este raciocínio pode estar dissimulado na estrutura do texto. Os argumentos mais fortes têm a estrutura de modus ponens ou de modus tollens, mas podem ser de outros tipos. A estrutura básica é a seguinte:
Premissa (s); logo, conclusão

Ex.:
   P1. Se existe a Terra, alguém a criou
   P2. Existe a Terra
Conclusão.: Logo, alguém criou a terra

(Este é um ex. de um argumento dedutivo. Se aceitarmos as premissas – e nada nos obriga a aceitar a primeira, por ex. – seremos obrigados a aceitar a conclusão)
            Os outros tipos de argumentos são: argumentos com base em exemplos; argumentos dedutivos; argumentos por analogia; argumentos de autoridade; argumentos sobre causas; argumentos baseados em sentimentos e emoções – cf. abaixo (WESTON, 1996).


A estrutura clássica (canónica) dos argumentos (WESTON, 1996):

1.º - Apresentação e análise do problema: contextualiza-se o texto que se segue: identifica-se um problema que se quer discutir e resolver; identificam-se problemas associados ou subproblemas.
2.º - Apresentação da tese: apresenta-se a conclusão a que se quer chegar/ a opinião que se pretende defender.
3.º - Apresentação de justificações ou argumentos favoráveis à tese que se pretende fundamentar; demonstrações; apresentação e análise de factos.
4.º - Análise de objecções ou de contra-argumentos; tentativa de refutação desses contra-argumentos.
5º - Síntese ou considerações finais – reafirmação da tese ou abandono desta em favor de uma tese mais forte.

Esta estrutura de argumento é utilizada desde a época clássica. É hoje utilizada como modelo padrão por facilitar a compreensão imediata do argumento e da articulação das suas partes: sabendo de antemão qual é o problema, percebo melhor o sentido da tese; identificando a tese no início do argumento, é mais fácil compreender e analisar as razões/os argumentos apresentados.
Esta facilitação da compreensão traz consigo uma facilitação da análise crítica, a qual é fundamental para as discussões científicas ou outras que coloquem a procura do conhecimento, entendido como património comum e como valor em si mesmo, acima dos interesses e das vaidades individuais. Seja na procura do conhecimento científico ou na procura de entendimentos morais e políticos, por exemplo, a verdade, o conhecimento ou a compreensão são bens comuns. Os indivíduos que aceitam participar num debate de ideias comprometem-se a dar as suas melhores contribuições para a procura da verdade/do conhecimento, mas também se comprometem a aceitar as conclusões mais bem fundamentadas, independentemente de gostarem delas ou não. Se não gostarem, têm de encontrar melhores argumentos que justifiquem a sua rejeição; senão, deverão ser consequentes e aceitar as conclusões encontradas. A análise e, sobretudo, a atitude crítica são fundamentais para o desenvolvimento de uma atitude filosófica e científica (que são estruturalmente semelhantes). Por arrastamento, são importantíssimas para a formação de cidadãos cosncientes, lúcidos e interventivos.
São possíveis outras estruturas de argumentos, mas estas não facilitam a sua análise crítica ou a sua compreensão. Omitir o problema ou a tese podem criar ambiguidades; colocar a tese depois dos argumentos, como se fosse a única conclusão natural, pode servir para conduzir e condicionar o pensamento do público... Um debate de ideias honesto deve ser rigoroso e colocar todas as cartas em cima da mesa. Os truques sujos e a manipulação estão interditos.

Tipos de argumentos:

a)     Argumentos com base em factos e exemplos: formam um dos tipos mais fortes de argumentos, uma vez que a apresentação de exemplos adequados e de base material pode dar um fundamento material e sólido àquilo que se pretende defender.
b)    Argumentos lógicos: podem ser dedutivos, indutivos ou por analogia. Os dedutivos, se forem bem formulados, são indestrutíveis e certos; se forem feitos com premissas tidas como verdadeiras, a sua conclusão deverá também ser verdadeira; se não o for, é porque existe um erro na formulação das premissas ou na nossa análise da realidade. Os indutivos não oferecem uma certeza absoluta, pelo que a sua força dependerá da qualidade da sua preparação. A força persuasiva dos argumentos por analogia é variável, dependendo da qualidade da analogia. Desde que o público compreenda e aceite a analogia, pode ser um argumento forte.
c)     Argumentos de autoridade: são argumentos fracos, servem mais para credibilizar a pessoa que argumenta do que para fundamentar uma tese. A qualidade das fontes é fundamental.
d)    Argumentos baseados em princípios e valores morais: são fortes, desde que esses princípios sejam consensualmente aceites e sejam considerados como sólidos.
e)     Argumentos com base em teorias: idem.


Força de um argumento:

Um argumento é tanto mais forte quanto mais coerente for e quanto melhor for o conjunto de provas materiais (observações directas e registadas) e quanto mais sólida e coerente for a sua estrutura lógica..

Tarefas:
1. Explique o que é argumentar.
2. Explique por que é que um argumento baseado em exemplos tende a ser mais forte do que um argumento de autoridade.
3. Justifique a razão de o primeiro passo de uma argumentação ser a apresentação do problema.
4. Explique o que é um argumento.


Critérios de análise e classificação dos argumentos:

Os raciocínios são analisados em termos da sua estrutura lógica. Esta estrutura é tal que pode funcionar independentemente do conteúdo que coloquemos dentro dela, e é definida pelas regras lógicas.
            A solidez e a fiabilidade de um raciocínio traduzem-se em três termos que correspondem a três graus de coerência:
Coerência total = validade
Coerência parcial = consistência
Incoerência (por desarticulação ou por contradição) = inconsistência

            No entanto, para além da estrutura lógica há que ter em conta um segundo nível de análise, que é o da verdade. Sabemos que é possível construir bons raciocínios a partir de falsidades, e vice versa, o que é suficiente para mostrar que necessitamos de dois critérios de análise distintos.


1. Validade – parâmetro de análise da coerência dos raciocínios

A validade é uma categoria de análise dos raciocínios e somente dos raciocínios. Um raciocínio é válido e somente se a sua conclusão pode ser naturalmente deduzida das premissas de acordo com as regras da lógica, de tal maneira que se aceitarmos que as premissas são verdadeiras e se a conclusão for legitimamente deduzida (de acordo com as regras da lógica), a conclusão será obrigatoriamente verdadeira. Por isso, a negação dessa conclusão implica a negação de pelo menos uma das premissas. Por outras palavras, existe validade quando existe uma perfeita coerência entre as premissas e a conclusão, de acordo com as regras da lógica.
O facto de a validade ser uma propriedade exclusiva dos raciocínios (=inferências) pode ser percebido através de um exemplo de um raciocínio correctamente construído, mas que é feito com proposições falsas:

Se o Papa se chama Luísa e se todas as Luísas são costureiras, podemos afirmar que o Papa é uma costureira.

É frequente explicar a relação de implicação necessária da conclusão pelas premissas da seguinte forma: se a conclusão é verdadeira, todas as premissas têm obrigatoriamente de ser verdadeiras; se alguma das premissas for falsa, a conclusão terá de ser obrigatoriamente falsa ou, pelo menos, não pode ser deduzida a partir dessa falsa premissa. Todavia, esta formulação é incorrecta, por confundir os critérios de validade e de verdade. Essa incorrecção é evidente a partir de exemplos concretos:

P1. Todos os espanhóis são alcoólicos
P2. Ernest Hemingway era espanhol
Conclusão .:Logo, Ernest Hemingway era alcoólico
 
Se analisarmos o exemplo podemos verificar que as premissas (P1 e P2) são falsas: não é verdade que todos os espanhóis são alcoólicos nem que Ernest Hemingway era espanhol. Todavia, sabemos que Ernest Hemingway era alcoólico, havendo vários relatos deste facto – fala-se em uma garrafa de gin por dia... (Hips!) Assim, vemos que a verdade da conclusão pode não implicar a verdade das premissas. Aquilo que importa ver é sempre a relação oposta: a verdade das premissas, essa sim, obriga à verdade da conclusão, se esta for dedutível a partir daquelas.

            Os argumentos que não são válidos podem ser consistentes ou inconsistentes. Consistência: um argumento consistente é aquele cuja conclusão não é totalmente apoiada pelas premissas (é um pouco mais complicado do que isto), apesar de estas apresentarem essa conclusão como possível. De outra maneira, podemos dizer da verdade das premissas de que dispomos não podemos deduzir o valor de verdade da conclusão. De tal forma que existe pelo menos uma possibilidade de o raciocínio levar a uma conclusão verdadeira e pelo menos uma possibilidade de esse mesmo raciocínio conduzir a uma conclusão falsa. Eis um exemplo:

O Rei Leopoldo da Bélgica tinha uma moral duvidosa
Tive um professor belga que tem uma moral duvidosa
Tanto Tin-Tin como Hergé têm morais duvidosas
Ouvi falar de outros belgas de moral duvidosa
Nunca ouvi falar de um belga que não tivesse uma moral duvidosa
Logo, todos os belgas têm uma moral duvidosa

Neste raciocínio, o conjunto das cinco premissas não é suficiente para afirmar a conclusão, pelo que podemos supor uma possibilidade de ele ser falso. Todavia, pelas mesmas razões, à falta de um exemplo de um belga de boa moral podemos supor que a conclusão do raciocínio pode ser verdadeira.
O que vimos neste exemplo é um exemplo de uma falácia. Uma falácia pode ser grosseiramente descrita como um vício de raciocínio. Há diversos tipos de falácias identificadas. A noção de falácia deve ser abordada à parte, uma vez que em alguns casos há dúvidas sobre o que se deve considerar como falácia e porque há dois tipos muito distintos de falácias (falácias formais e falácias informais), dentro dos quais encontramos casos variados e todos eles muito interessantes. O conhecimento das falácias mais comuns é fundamental e merece uma consulta.

            Inconsistência: um raciocínio é inconsistente quando não há qualquer possibilidade de ele ser verdadeiro. Esta inconsistência deve-se a pelo menos uma de duas razões: por alguma das premissas ser falsa ou por a conclusão não poder ser deduzida das premissas (por falta de nexo). Eis um exemplo que cobre estes dois casos:

  P1. Existem unicórnios e cavalos com asas
  P2. As pipocas com sal são mais saudáveis do que as pipocas com manteiga, açúcar ou molho picante
  Conclusão .: Logo Deus existe


2. Verdade – Valor de verdade das proposições:

A validade diz respeito apenas à forma do raciocínio, enquanto que o valor de verdade diz respeito ao conteúdo de um determinado tipo de frases (e, por arrastamento, dos raciocínios compostos com frases desse tipo.)
O valor de verdade de uma frase podem ser um, e apenas um, de dois: verdade ou falsidade. Quer dizer, as frases que possuem um valor de verdade são ou verdadeiras ou falsas. Obrigatoriamente terão de possuir um destes valores de verdade e não podem possuir ambos. Nem todas as frases possuem um valor de verdade, apenas aquelas que afirmam ou descrevem factos (acontecimentos ou estados de coisas). Estas frases chamam-se proposições. As proposições são asserções, quer dizer, são frases afirmativas (afirmam qualquer coisa). É na medida em que aquilo que afirmação está ou não com a realidade que as torna verdadeiras ou falsas. Teoricamente, são verificáveis (WITTGENSTEIN, 1987, TARSKI, 1990).
(Para que possamos ter objectividade naquilo que dizemos é necessário fazer afirmações e descrever factos. Se o fizermos, não só saberemos do que estamos a falar, como as outras pessoas têm a possibilidade de verificar aquilo que afirmamos. Uma teoria só nos diz alguma coisa e é boa se possuir um número suficiente de proposições verificáveis que a tornem capaz de descrever a realidade.)
Para além de uma análise semântica, pode-se fazer uma análise sintáctica das proposições. Assim, uma proposição pode ser uma tautologia, quando é impossível que seja falsa, contingente, quando pode ser verdadeira ou falsa, ou contraditória, quando é impossível que seja verdadeira. Exemplos: "Ou foste ao cinema, ou não foste ao cinema"; "Foste ao cinema ou foste à praia"; "És uma criança, mas já não és uma criança".

Bibliografia:
BRANQUINHO, J. e MURCHO, D. – Dicionário de termos lógico-filosóficos, Lisboa, Gradiva, 2001
NEWTON-SMITH, W.H. – Lógica: um curso introdutório, Lisboa, Gradiva, 1998
QUINE, W. O. – The Roots Of Reference, La Salle, Illinois, Open Court, 1973
TARSKI, Alfred – “A concepção semântica da verdade e os fundamentos da semântica”, in Existência e linguagem: ensaios de filosofia analítica (antologia de textos de filosofia analítica), Lisboa, Presença, 1990
WESTON, A. – A arte de argumentar, Lisboa, Gradiva, 1996
WITTGENSTEIN, Ludwig – Tratado lógico-filosófico, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1987


EXERCÍCIOS:

Argumentação

1.     Analise os seguintes argumentos e
a)     Identifique o problema, a tese, os argumentos e os contra -argumentos
b)    Identifique e classifique os diferentes argumentos utilizados.
c)     Classifique-o como um argumento forte ou fraco, justificando a sua resposta.
d)    Avalie a sua clareza e a sua força.

i) «Dizes que este homem é bom, porque não levanta a mão contra os seus inimigos; dizes que é justo, porque se indigna com a violência e deixa cada um seguir o seu caminho. Pois eu te digo que aquele que não cobra uma injúria com a violência está a deixar que o mundo apodreça aos poucos. Ele é vil, cobarde e injusto. Um homem é bom por coisas que faz, não por coisas que deixa de fazer. Os deuses fizeram de nós homens, não alforrecas, e é isso que devemos ser."
(Excerto da tragédia Bruto, o romani que resolvia tudo à facada, de William Sheiodespeed)

ii) “Hipólito, volta para casa! Oh!, ingrato! Depois de tudo o que fizemos por ti… A tua pobre mãe está inconsolável e chora lágrimas de sangue dias a fio. Deverias pensar na nossa conta da tinturaria, com tantos lenços e lençóis que se gastam, ensopados de lágrimas e outras secreções! Outros fizeram como tu e deram-se mal, a andar atrás das flauzinas. Olha para o filho da D. Lurdes, que deu em arrumador de carros, e para o Miguel Caretas, que deu em pateta e foi parar ao asilo, e verás o que te pode suceder. Fui falar com o Padre e ele disse que deverias ter mais juízo. Fui consultar a médica de família e ela disse-me que o teu dever é estar aqui connosco. Fui falar com o teu patrão e ele disse-me que haveria de te dizer qualquer coisa. Reconsidera o que estás a fazer. Afinal, o que está certo é cada um apoiar os seus, e o que um pai de família deve fazer é zelar pela sua casa em vez de andar a torrar o guite em copos de tinto nas buátes.” (excerto da carta das mães de Bragánça)

2.     Construa argumentações sobre um dos temas que se seguem: a venda de bebidas alcoólicas na escola, o uso de uniformes na escola, a diminuição dos salários ou o auxílio humanitário a países sub-desenvolvidos.
Siga a estrutura clássica: comece por 1) definir/formular um problema e 2) uma tese que seja a sua resposta a esse problema (os problemas mais inbteressantes são os que não suscitam apenas uma resposta do género “sim” ou “não”), continue 3) apresentando uma sequência bem encadeada de razões que apoiem solidamente essa tese e que, se possível, sejam coerentes entre si. 4) Se for caso disso, elabore uma síntese final do seu argumento (faz sentido se o seu argumento fôr longo – com mais de duas ou três páginas)
Construa um argumento tão sólido quanto lhe for possível, com razões objectivas e bem articuladas. A tese deve responder directamente ao problema e as justificações devem apoiar a tese, encadeando-se de forma fluida e natural
Utilize pelo menos quatro tipos diferentes de argumentos.
3.     Em 50-70 palavras compare os objectivos ideais e os objectivos possíveis da argumentação. Se necessário pesquise as obras referidas e analise textos argumentativos produzidos em diferentes contextos.

4.     Explique a importância da argumentação para a ciência e para a democracia.